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Família e educação dos filhos22 de outubro de 2026 • 12 min de leitura

Além das telas: como a ordem familiar ajuda a formar adolescentes maduros

Entenda como a ordem familiar, o vínculo conjugal e os limites para o uso de telas contribuem para a maturidade emocional dos adolescentes.

Rodrigo Flores
Psicólogo clínico • CRP 04-35702 • Terapeuta ThetaHealing
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“Quando o lar oferece vínculos seguros e limites claros, o adolescente encontra forças para sair do reflexo das telas e amadurecer no mundo real.

Além das telas: como a ordem familiar ajuda a formar adolescentes maduros

Para compreender o comportamento contemporâneo de crianças e jovens diante dos aparelhos eletrônicos, é preciso percorrer um caminho em três movimentos essenciais: primeiro, examinar os sintomas superficiais manifestados no isolamento e na busca por validação externa; em seguida, investigar a raiz estrutural desse fenômeno na qualidade do relacionamento conjugal e na ordem dos amores (Ordo Amoris); e, por fim, retornar à realidade prática para definir o papel ordenador e formador dos pais na condução da maturidade do adolescente.

A divisão do tempo entre a frequência escolar e o uso de tablet por um estudante - até o Ensino Médio - reflete as dinâmicas do mito de Narciso, articulando-se nas dimensões de busca por aprovação, gestão da autoimagem e isolamento em personas virtuais. A utilização contínua de aparelhos eletrônicos e redes sociais favorece a busca por validação externa superficial, em que a exigência constante de interações previsíveis opera de modo análogo ao fenômeno da Deusa Eco no mito de Narciso, reduzindo o convívio ao reforço da própria projeção.

Na adolescência, a preocupação com a imagem pública intensifica-se por meio de recursos digitais, como filtros e manipulação estética, condicionando a percepção individual à aprovação externa e convertendo a representação social em objeto de exibição. Consequentemente, a imersão no ambiente virtual restringe o engajamento com obrigações concretas, estudos e interações interpessoais diretas, atividades físicas, estudos prolongados, aquisição de novas habilidades sociais (soft skills). Assim, a centralidade do smartphone e tablet limitam o desenvolvimento pessoal e a socialização ao cultivo de um reflexo virtual, afastando o indivíduo do contato com a realidade externa e com vínculos interpessoais diretos.

A análise do comportamento centrado no uso excessivo de tablets, na validação externa e na manipulação da autoimagem e isolamento encontra explicação direta nos conceitos sobre a crise da cultura, a cultura do espetáculo e a psicologia moral. Abaixo estão os principais pontos de articulação entre o comportamento relatado e esses conceitos.

Ao abordar a gestão da autoimagem e o uso de recursos como filtros, constata-se que a dinâmica das redes sociais é profundamente esclarecida pelas reflexões fundamentadas na Teoria Mimética de René Girard. Segundo essa abordagem, a experiência digital contemporânea opera na perfeita simbiose entre o narcisismo — caracterizado pela exposição vaidosa e calculada de uma imagem projetada com o intuito de obter aprovação social — e o voyeurismo, definido pelo consumo contínuo da vida alheia. Esse ciclo retroalimentado acaba por degradar progressivamente a dimensão da intimidade e da interioridade do jovem, substituindo-as por uma verdadeira sociedade espectral fundamentada na aparência, na proliferação de imagens e na vaidade. Portanto, jovens inseguros, ora tímidos ora reativos.

A analogia com o fenômeno da Deusa Eco e a busca por interações previsíveis remetem à cadeia mimética interminável das redes sociais. Conforme indicado na análise, o desejo torna-se mimético e voltado para a repetição de padrões, de modo que a curtida atua não apenas como aprovação, mas como um estímulo à conformidade e à imitação, o que resulta no esvaziamento do pensamento crítico e da profundidade das relações.

A imersão no ambiente virtual e o descompromisso com obrigações concretas, a exemplo de estudos e vínculos diretos, ilustram o conceito de presentismo, caracterizado pela escravidão ao "hoje" e ao efêmero, tal como se observa no mecanismo de publicações que desaparecem em vinte e quatro horas. Essa cultura diversionista e descartável gera uma perda de eixo existencial e dificulta o desenvolvimento de virtudes fundamentadas na prudência, na fortaleza, na temperança e na justiça, as quais exigem silêncio, introspecção e esforço real, que poderia fundamentar uma narrativa em torno de eixos biográficos saudáveis como a prosperidade, o serviço ou mesmo o eixo da transcendência espiritual. No entanto, a falta de ordem interior articula uma biografia centrada no prazer. Nesse contexto, assim como a personagem do conto Os sobreviventes, de Caio Fernando Abreu, a sucessão de eventos e experiências vivenciadas na fase adulta revela uma trajetória carente de raízes profundas para a compreensão de si e da própria existência. Desse modo, a busca incessante pelo prazer — inevitavelmente confrontada pela realidade desprazerosa do fracasso e das limitações — configura o que se pode chamar de tragédia do prazer. É um conto que infelizmente pode ser um presságio para a vida futura de muitos jovens. Além disso, a ausência de vivências interpessoais diretas impede o autoconhecimento genuíno que, segundo a tradição clássica da ética das virtudes e da psicologia de Platão, depende da integração social, do cultivo da alma e do amor verdadeiro, em detrimento da fixação em um mero reflexo virtual.

Assim, a tese de Sócrates no diálogo Lísis pode ser formulada com mais precisão: o uso centrado na validação externa ameaça a amizade quando transforma o outro em espelho, plateia ou instrumento de aprovação. A contribuição de Platão é lembrar que a amizade merece investigação justamente porque não se deixa confundir com reconhecimento imediato, semelhança de gostos ou conveniência. A consistência do laço social, a tese de Sócrates, precisa ser investigada pelo jovens para que este espaço seja de seu domínio e não de insegurança.

Em suma, o comportamento descrito corrobora a tese de que a cultura digital contemporânea, destituída de referenciais sólidos e de formação interior, tende a rebaixar o ser humano ao plano das satisfações imediatas e da dependência da opinião alheia, comprometendo sua maturidade existencial e sua capacidade de estabelecer vínculos reais. O campo das amizades e da convivência centraliza esse trecho, pois é justamente a fragilidade desse laço que dá espaço para que a psique se desenvolve de modo sintomático.

Todos esses fatores são indicativos de uma causa estrutural anterior: a qualidade e a estabilidade do relacionamento conjugal. É precisamente aqui que direcionamos os nossos esforços para sustentar a tese de que o desenvolvimento saudável de crianças e jovens depende diretamente da solidez do vínculo entre os responsáveis por sua formação. Cabe ressaltar que não nos debruçaremos aqui sobre o contexto de pais ou mães solos ou responsáveis direto sobre as crianças e jovens, uma vez que a densidade dessa realidade exige um espaço de reflexão próprio e dedicado.

Estamos dialogando diretamente com você, mãe e esposa, que compartilha a edificação do lar e a criação dos filhos com seu(sua) parceiro(a). Precisamos colocar sob a lente dos nossos olhos a qualidade do relacionamento conjugal, para que você perceba de forma honesta a profunda correlação entre a vida do casal e o comportamento dos filhos.

A união estável entre dois seres humanos adultos constitui o centro da estrutura familiar. Nesse ordenamento, o cônjuge deve ser a prioridade máxima na vida do indivíduo, sobrepondo-se tanto à relação com os filhos quanto à relação com a família de origem, composta por pais e sogros. A família centrada no casal atua como o núcleo estabilizador não apenas do indivíduo, mas de toda a sociedade, de modo que a descentralização do vínculo conjugal acarreta o colapso da dinâmica interna do lar e da estabilidade psíquica de seus membros.

Essa centralidade fundamenta-se na promessa de duração estendida ou prolongada, estabelecendo uma direção definitiva para o futuro e uma verdade firme no passado. O casamento que inicia sua trajetória pensando no fim tem uma fragilidade estrutural no compromisso. Ao assumir um compromisso incondicional até o limite real das próprias forças, o casal cria um espaço capaz de conter a volatilidade das circunstâncias e servir como ancoragem psíquica. Manter essa promessa viva exige o cultivo diário do relacionamento por meio de pequenas doses de sacrifício, renunciando a caprichos imediatos para assegurar a presença contínua do outro.

Dessa forma, o lar fundamentado na ordem conjugal consolida-se como um porto seguro de acolhimento incondicional, diferindo dos ambientes sociais e profissionais pautados pela eficiência, riqueza ou desempenho. Na família preservada por esse vínculo, a pessoa pode enfrentar a doença, o fracasso, o envelhecimento ou a vulnerabilidade e, ainda assim, encontrar refúgio e aceitação absoluta.

Dito de outra forma, a substância do lar fundado no matrimônio reside na sua capacidade de oferecer aceitação e recepção incondicionais. Diferente do ambiente de trabalho ou das relações sociais — onde o indivíduo é cobrado por eficiência, produtividade e utilidade —, na família a pessoa pode estar fraca, doente, falida, fracassada ou temporariamente inútil e, ainda assim, encontrar refúgio e acolhimento absoluto. Essa certeza de recepção incondicional funciona como uma ancoragem de segurança psíquica e emocional para adultos e crianças.

Esse porto seguro, contudo, não surge de forma espontânea, sendo sustentado e blindado pela promessa de duração estendida até o limite da vida assumida pelo casal. Quando o matrimônio é conduzido sob a lógica da condicionalidade, a estabilidade do lar é abalada, gerando nas crianças a insegurança de que o afeto também possa ser condicional. Para que a família continue a cumprir sua função de refúgio, a união conjugal deve ser preservada como prioridade máxima, protegendo-a de distorções como a interferência excessiva da família de origem ou a inversão de papéis com os filhos. Manter essa estrutura exige o cultivo diário do relacionamento por meio do sacrifício e da renúncia a caprichos individuais, permitindo que a convivência familiar assegure a estabilidade interna e o desenvolvimento de seus membros.

A antropologia apresenta o amadurecimento afeto-emocional humano como uma escalada hierárquica de amores, onde os degraus mais baixos só se mantêm vivos e frutificam quando regados pelo sacrifício. Eros (Sensual / Sensitivo) é o primeiro. É o amor mais basilar e inicial, movido pelo prazer imediato dos sentidos. Se permanecer isolado, o Eros torna-se egoísta, hedonista e instável, pois vive apenas das sensações do presente. O O mito de narciso descreve o comportamento das pessoas que fixam ou demoram nesse estágio do desenvolvimento do amor. Depois vem Storge (Responsabilidade do Cuidado). Surge quando o indivíduo aprende a responder a uma promessa (respondere). É a introdução de pequenas pitadas de sacrifício voluntário (como cuidar do lar, servir ou abrir mão do conforto imediato) para fazer com que o bem amado dure mais tempo. Philia (A Amizade e Cumplicidade Conjugal) vem na sequência. Caracteriza-se pela comunhão de propósitos — "amar as mesmas coisas e repudiar as mesmas coisas" (idem velle, idem nolle). No casamento, a Philia eleva a mera atração física para um projeto compartilhado de vida e companheirismo. Ai vem o matrimônio ou o Amor Esponsal. Representa o cume dos afetos perceptíveis pelos sentidos — a decisão de estender o compromisso até o limite da vida corporal ("até que a morte nos separe"). Por fim, temos o amor Ágape (Amor Transcendente e Misericórdia). É a doação desinteressada que vence a morte e desce em atos de compaixão e doação total.

O princípio antropológico do Ordo Amoris estabelece que amores superiores sustentam os amores inferiores. Quando o indivíduo se recusa a sacrificar os seus confortos sensíveis (Eros) em prol do compromisso com o cônjuge (Storge e Philia), a personalidade desmorona em uma dinâmica narcisista. O matrimônio é, portanto, o meio pelo qual a pessoa "pede socorro para ser livre de si mesma e do próprio egoísmo".

O adolescente experimenta os desafios próprios de sua idade e da época em que vivemos, mas sua trajetória pode se tornar profundamente solitária quando falta uma estrutura familiar fundamentada nesses amores superiores — uma ordem de afeto que consiga descer até o nível de sua vivência para guiá-lo com sabedoria. Esse jovem acaba vivendo achatado no presente. Falham-lhe, em sua estrutura psíquica, dois movimentos cruciais para o amadurecimento: a construção de juízos equilibrados e realistas sobre a vida e a capacidade de planejar o futuro com responsabilidade. Sem esses dois eixos, que dependem diretamente da mediação de adultos amadurecidos, todo o seu universo interno passa a orbitar exclusivamente o instante presente e a figura do Personagem — a camada da psique que gerencia a interação com o aqui e o agora.

O Personagem corresponde à dimensão física e sensível no presente, cujo modo de operação saudável é a temperança, entendida como a capacidade de dosar o tempo e a atenção dedicados a cada aspecto da vida. Conforme o princípio de que o ser humano se transforma naquilo em que coloca a sua presença e o seu olhar, a imersão contínua de uma jovem diante de telas estáticas molda seu imaginário, sua memória e seus afetos por meio de estímulos virtuais artificiais. Esse consumo excessivo de energia psíquica esgota a atenção, deixando o Personagem fadigado e sem disposição para explorar o mundo real, ler, praticar atividades físicas ou conviver em família. Aos 13 anos, a puberdade traz o afluir das emoções e a necessidade de estabilização da identidade. É nessa fase que a adolescente precisa realizar os testes das emoções no mundo real, utilizando recursos como linguagem, presença física e habilidades sociais para aproximar o que deseja e afastar o que lhe faz mal. Em contrapartida, o tablet oferece uma relação mediada e passiva, na qual a jovem não é desafiada a lidar com a frustração, com a presença corporal do outro ou com os imprevistos da realidade. Como o conhecimento intelectual depende do repertório captado inicialmente pelos sentidos no plano físico, a ausência de vivências concretas empobrece a formação do intelecto e da capacidade crítica.

Diante disso, um jovem ainda não possui a vontade intelectual nem a prudência plenamente desenvolvidas para autogerir seu tempo e impor limites ao consumo de telas. Sem regulação externa, sua tendência natural é entregar-se de forma destemperada ao prazer imediato e à curiosidade proporcionados pelo universo virtual que os equipamentos eletrônicos proporcionam. Torna-se imprescindível, portanto, o papel ordenador dos pais e adultos de referência, que devem introduzir a temperança por meio de rotinas firmes, limites claros e estímulos direcionados ao cumprimento de tarefas, estudos, passeios ao ar livre e horários de desconexão, ensinando o Personagem a exercitar o sacrifício no presente em prol da maturidade futura.

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